28 Setembro, 2007

A CASA - 3a Montagem - Paço das Artes / São Paulo 2007




Microbricolagens clandestinas
por Juliana Monachesi


Alan Fontes é um artista que pesquisa a linguagem pictórica na era da imagem técnica. Em um contexto pós-industrial, a pintura se caracteriza como pós-produção: vale-se do repertório cultural para resignificar, recombinar e reprogramar elementos da história da arte e do cotidiano. Trata-se de uma reciclagem estética que dá sentido e aumenta a sobrevivência dos objetos culturais que habitam em excesso –e, portanto, em contínuo processo de esquecimento– o imaginário contemporâneo. Uma “micropirataria”, para usar um termo de Nicolas Bourriaud –o teórico da “pós-produção”–, está em curso na instalação “A Casa”, que Alan Fontes apresenta no Paço das Artes.

A escolha da casa como objeto de sua investigação já demonstra de saída o partido adotado pelo artista. Interessa a ele o que nos é familiar. Interessa corromper a assepsia do espaço expositivo com uma ambientação com a qual todo visitante pode se identificar: mesa, sofá, televisão, estante com objetos comuns, vasos de planta, brinquedos, tapetes, cadeiras e... quadros. A pintura de Alan Fontes não existe fora desse ambiente construído; ela se apresenta aclimatada na intimidade do espaço (re)conhecido; ela se dá a ver não como obra de arte hermética a ser decifrada ou rechaçada, mas sim como uma peça integrante do universo compartilhado e, portanto, nos captura desarmados, nos convida à aproximação.

Mas ao primeiro impacto, de reconhecimento, segue-se um outro, de desvio da esfera do familiar. Todos os ambientes da casa e os objetos que os ocupam são pintados de cinza. A cor aparece apenas nas pinturas e, sub-repticiamente, como ruídos em meio ao acinzentado, em uma lâmpada verde de um abajur ou em um ou outro móvel. “A Casa” contém algo de estranho ou sinistro, porque as pinturas se destacam como algo mais real do que os móveis em sua materialidade pseudo-real. Desse modo, os cômodos dessa habitação desviante levam o observador a reconhecer o familiar na planaridade da tela que representa a casa em detrimento de identifica-lo na tridimensionalidade dos objetos caseiros. O contraste entre um registro e outro desequilibra a experiência da obra.

Um percurso que oscile entre habitar o espaço e habitar a pintura nos leva a desvelar as micropiratarias contidas nas telas: um arranjo de bichos de pelúcia nos remete à obra de Annette Messager; uma almofada jogada sobre um sofá encena uma padronagem de Beatriz Milhazes; os ímas de geladeira formam uma pequena exposição coletiva de obras consagradas; inúmeros auto-retratos de Alan Fontes estampam as paredes dos diferentes cômodos. Essas e diversas outras reprogramações do arquivo morto da cultura ocidental renascem na investida pós-produção do artista.

Interessante notar, como uma dobra conceitual na produção de Alan Fontes, as reciclagens culturais que o artista empreende entre uma e outra montagem de seus trabalhos. A própria produção do artista está sujeita a reprogramações. Fecha-se, assim, um ciclo ecológico de extrema coerência. Estamos diante de um criador que não infesta o mundo de novidades mas, antes, preocupa-se em dar uma destinação digna ao repositório de novidades postas no mundo por todos os criadores que o antecederam. Pensando com Félix Guattari, podemos dizer que Alan Fontes exercita em seu trabalho as três ecologias (mental, ambiental, subjetiva) preconizadas pelo filósofo francês como um novo paradigma estético-ético-político, o da “ecosofia”.

Frames da animação A CASA


Exibida no Paço das Artes SP 2007 e na Galeria Celma Albuquerque BH 2006.
2 minutod de duração Técnica: Stop Motion
Animação: Alan Fontes
Montagem: Joacélio Baptista

30 Novembro, 2006

Casa dos Espelhos / Instalação / Galeria Celma Albuquerque / 2006






... a vida é cheia de infinitos absurdos, os quais, descaradamente, nem ao menos têm
necessidade de parecer verossímeis. (...) Porque esses absurdos são verdadeiros.
[LUGI PIRANDELLO, Seis personagens à procura de um autor, 1921]

Pintura Além da Pintura / Evento Internacional de Pintura realizado pelo CEIA / Belo Horizonte, agosto de 2006.




PINTURA ALÉM DA PINTURA, foi o quarto evento internacional promovido pelo CEIA, Centro de Experimentação em Arte, ocorrido no período de 01 a 30 de agosto de 2006 em Belo Horizonte. As atividades realizadas incluiram uma oficina durante todo mês, ministrada pelos artistas convidados, uma mostra de vídeo e um ciclo de palestras.
As imagens acima documentam o trabalho realizado neste evento. A montagem de um cenário fotográfico, no qual foram produzidas fotos experimentais para modelos de convivência na casa e os frames de uma animação stop motion para compor a instalação "Casa dos Espelhos".

Bar da Ana / Instalação / Circuito de intervenções: Arte no Banheiro / Belo Horizonte 2006



A Casa / Pinturas / Instalação/ Primeira Montagem na Galeria de Arte da Copasa / Belo Horizonte outubro de 2005









A CASA


As primeiras pinturas da série “A CASA” foram realizados a partir de 2005 e discutem a presença da auto-imagem na arte contemporânea como criadora de memória e identidade, capaz de instaurar resistências e gerar sentidos no contexto das artes visuais. As noções contemporâneas de tempo e espaço, advindas da virtualidade e conseqüentemente da tecnologia, reverberam na concepção do auto-retrato que passa a discutir um repertório de questões artísticas que em muito excedem a representação da face do pintor. O auto-retrato toma para si impasses profundos da arte atual e se coloca como pano de fundo para a discussão de questões como a noção de autoria, a idéia de “morte do autor” e ainda para se falar da inconstância do tempo e do espaço.


Neste contexto, utilizo como viés conceitual para concepção da pesquisa plástica, o conceito de Pós-produção desenvolvido por Nicolas Bourriaud, crítico e curador francês, que se apropria do termo, já utilizado na área da televisão e do vídeo, para interpretar um fenômeno do começo dos anos noventa, quando um número crescente de artistas passam a utilizar obras de arte, formas e outros produtos culturais já disponíveis, em seus processos criativos, abolindo distinções tradicionais como produção e consumo, criação e cópia, ready-made e obra original. Bourriaud percebe uma rede de comunicação, na qual artistas re-programam obras existentes, habitam estilos e formas históricas, fazem uso das imagens e dos meios de comunicação em massa e utilizam a sociedade como repertório de formas.


Portanto, o trabalho A CASA, se constrói como uma investigação pictórica que perscruta os limites da auto-imagem através da construção de uma casa pós-produzida e especula sobre o caráter real e ilusório da pintura. Uma instalação construída a partir da combinação de pinturas que representam interiores de espaços domésticos, com móveis e objetos reais, somando-se ainda com a colagem e apropriação de imagens de obras de arte, sendo estas de outros momentos de minha produção pessoal, assim como obras de outros artistas participantes do meu referencial imagético. Neste sentido, “casa” é a forma escolhida para a representação e construção de um auto-retrato em sentido ampliado, enquanto sujeito e artista, propondo um espaço de consumo e de produção onde o autor se reconhece como um consumidor potencialmente subversivo, que projeta, escolhe, constrói e compra os produtos para sua casa, adaptando-os à sua personalidade e necessidade praticando no espaço simbólico da casa o comunismo da forma.


A pintura em campo expandido e o relacionamento da linguagem pictórica como outras linguagens, colocando em evidência o caráter virtual da pintura através do contraste com um real pobre em verdade também são objetivos da proposta. A pintura no espaço, como espaço. Uma casa fictícia instalada em uma galeria de arte, na qual seria possível adentrar-se nela e refletir sobre questões próprias à linguagem, como a construção da pintura na era da imagem técnica, a dialética entre representação e apresentação, verdade e simulacro.

A Cidade / Pinturas / 2003 - 2004

Projeto para a cidade e Diário de bordo





Cidade 3 / Acrílica s/tela / 100 x 120 cm / 2004



Angel Rama nos lembra que, antes de serem uma realidade de ruas, casas, praças, avenidas, viadutos e pontes, as cidades nasciam completas, por um parto da inteligência, nas normas que as teorizavam, nas atas de fundação que as instituíam, nos planos que as desenhavam idealmente, com essa fatal regularidade que espreita os sonhos da razão. Cidades desenhadas, cidades pintadas, cidades escritas existiram -na voz, no papel e na tela - muito antes de serem construídas. E seguirão existindo, diferentes e semelhantes, iguais e paralelas ás concretas cidades de cimento e tijolos.
A série "A CIDADE" é composta pinturas e caixas de desenhos que versam sobre a paisagem urbana. São trabalhos produzidos a partir de desenhos dos diários de bordo colhidos nos percursos pela cidade, nos altos de prédios e satélites que cobrem as metrópoles. Busca-se construir, por pura especulação, uma imagem virtual, planejada e visível da cidade, muito além de sua existência factual. Um arquétipo de cidade que sobrevive em constante mudança pela obra do homem e pela usura do tempo.

Profa. Dra. Maria Angélica Melendi (EBA / UFMG)

Créditos Fotográficos: Kurtnavigator

www.kurtnavigator.com.br