29 setembro, 2007

A CASA - 3a Montagem - Paço das Artes / São Paulo 2007




Microbricolagens clandestinas
por Juliana Monachesi


Alan Fontes é um artista que pesquisa a linguagem pictórica na era da imagem técnica. Em um contexto pós-industrial, a pintura se caracteriza como pós-produção: vale-se do repertório cultural para resignificar, recombinar e reprogramar elementos da história da arte e do cotidiano. Trata-se de uma reciclagem estética que dá sentido e aumenta a sobrevivência dos objetos culturais que habitam em excesso –e, portanto, em contínuo processo de esquecimento– o imaginário contemporâneo. Uma “micropirataria”, para usar um termo de Nicolas Bourriaud –o teórico da “pós-produção”–, está em curso na instalação “A Casa”, que Alan Fontes apresenta no Paço das Artes.

A escolha da casa como objeto de sua investigação já demonstra de saída o partido adotado pelo artista. Interessa a ele o que nos é familiar. Interessa corromper a assepsia do espaço expositivo com uma ambientação com a qual todo visitante pode se identificar: mesa, sofá, televisão, estante com objetos comuns, vasos de planta, brinquedos, tapetes, cadeiras e... quadros. A pintura de Alan Fontes não existe fora desse ambiente construído; ela se apresenta aclimatada na intimidade do espaço (re)conhecido; ela se dá a ver não como obra de arte hermética a ser decifrada ou rechaçada, mas sim como uma peça integrante do universo compartilhado e, portanto, nos captura desarmados, nos convida à aproximação.

Mas ao primeiro impacto, de reconhecimento, segue-se um outro, de desvio da esfera do familiar. Todos os ambientes da casa e os objetos que os ocupam são pintados de cinza. A cor aparece apenas nas pinturas e, sub-repticiamente, como ruídos em meio ao acinzentado, em uma lâmpada verde de um abajur ou em um ou outro móvel. “A Casa” contém algo de estranho ou sinistro, porque as pinturas se destacam como algo mais real do que os móveis em sua materialidade pseudo-real. Desse modo, os cômodos dessa habitação desviante levam o observador a reconhecer o familiar na planaridade da tela que representa a casa em detrimento de identifica-lo na tridimensionalidade dos objetos caseiros. O contraste entre um registro e outro desequilibra a experiência da obra.

Um percurso que oscile entre habitar o espaço e habitar a pintura nos leva a desvelar as micropiratarias contidas nas telas: um arranjo de bichos de pelúcia nos remete à obra de Annette Messager; uma almofada jogada sobre um sofá encena uma padronagem de Beatriz Milhazes; os ímas de geladeira formam uma pequena exposição coletiva de obras consagradas; inúmeros auto-retratos de Alan Fontes estampam as paredes dos diferentes cômodos. Essas e diversas outras reprogramações do arquivo morto da cultura ocidental renascem na investida pós-produção do artista.

Interessante notar, como uma dobra conceitual na produção de Alan Fontes, as reciclagens culturais que o artista empreende entre uma e outra montagem de seus trabalhos. A própria produção do artista está sujeita a reprogramações. Fecha-se, assim, um ciclo ecológico de extrema coerência. Estamos diante de um criador que não infesta o mundo de novidades mas, antes, preocupa-se em dar uma destinação digna ao repositório de novidades postas no mundo por todos os criadores que o antecederam. Pensando com Félix Guattari, podemos dizer que Alan Fontes exercita em seu trabalho as três ecologias (mental, ambiental, subjetiva) preconizadas pelo filósofo francês como um novo paradigma estético-ético-político, o da “ecosofia”.

3 comentários:

Luiz Henrique Vieira disse...

Oi, Fontes,
Gostei muito de ver a instalação sobre um piso de tacos de madeira; isso contribuiu bastante na configuração do ambiente doméstico. O amplo espaço da galeria permitiu uma montagem arejada, o que me agrada bastante. Eu gostaria de ver mais fotos, inclusive a do desdobramento do quarto da Anette. Que tal postar outras?
Parabéns pelo trabalho e pela obra que está sendo construída.
grande abraço!

Viviane Gandra disse...

Oi Alan!
Tento há algum tempo contato com vc, os dois endereços de email que consegui não funcionaram (as msgens voltaram).
Preciso estar em contato com vc, para conversarmos sobre a próxima publicação do CEIA.
Envia p mim p favor um endereço de email válido?
Obrigada, até,
Viviane
(vie.gandra@gmail.com)

Márcio disse...

Oi Alan !
Quando teremos novas instalações/exposições tão boas quanto esta que encontro aqui ? De fato a boa arte é sempre benvinda, e a sua, é potente antidoto para nosso devir arte. Obrigado pelo seu empenho na nossa caminhada. Parabéns pelo seu trabalho.
Abraço
Márcio